Não é que as coisas que Ele diz sejam para ser levadas a sério, mas fiquei a matutar na frase "tu não és uma princesa e isto não é um conto de fadas". Mas, princesa, eu?? Tomara eu! Cá em casa, tanto eu como os meus irmãos, nunca fomos mimados. Os meus pais sempre tiveram outras prioridades como trabalhar, jantar fora, sair com amigos, viajar, ou até mesmo dormir. Lembro-me do meu avô me vir buscar de manhã a casa para me levar à escola, para não sobrecarregar os meus pais, sendo que o meu pai trabalhava a dois minutos da escola. Isto foi quando morávamos com os meus pais, porque entretanto eles perceberam que dávamos trabalho e foi tudo recambiado para a casa dos avós. Aí sim, talvez tenha sido uma princesinha, corria mesmo o risco de rebentar de amor. Quando os coleguinhas da escola perguntavam porque é que vivíamos com os nossos avós, a resposta era sempre "porque os nossos amigos moram perto dos avós, é mais fácil para brincarmos." Na verdade, nem eu sabia muito bem porquê, aquela era a resposta que me parecia melhor para não dar aso a mais perguntas. Quando tinha 16 anos e o meu irmão 19, regressámos a casa. Já podíamos ir sozinhos para a escola e já não atrapalhávamos assim tanto (pensavam eles). Eu não queria, os meus irmãos não queriam e os meus avós não queriam. Mas os meus pais lembraram-se que tinham filhos e quiseram. Foi estranho. Sentimo-nos visitas na nossa própria casa. Entretanto os anos foram passando, fomos ficando e por cá continuamos. A nossa relação com os nossos pais nunca melhorou, piorou aliás. Os nossos pais não percebiam porque é que éramos uns "bichos", palavra deles, porque nunca falávamos. Apesar deles nos terem acompanhado sempre - mesmo quando estávamos nos nossos avós eles iam lá a casa visitar-nos, iam às reuniões de pais, compravam-nos o que precisávamos e, por incrível que pareça, incutiam-nos valores - quando estava com eles sentia timidez, igual à que sentia com estranhos. Mas havia uma coisa em que os meus pais eram os melhores: a dar ralhetes. Davam ralhetes como ninguém. Se fosse preciso acompanhados de palmadas ou de bofetadas, dependendo se o ralhete viesse do pai ou da mãe, respectivamente. Acho que os meus pais sempre foram como uma sombra. Nunca estiveram mesmo lá, mas também nunca saíram de lá. E mesmo mais afastados, sempre foram muito exigentes. Talvez por nunca termos recebido muito carinho da parte deles, mas sim muitas cobranças em relação à escola, amizades e educação, ainda hoje não consigo mostrar aos meus pais quem realmente sou. Existo eu à frente deles e eu nas costas deles. Não sou uma doidivanas nas suas costas, sou simplesmente eu. É o meu lado bom. À frente deles sou uma pessoa mais fria e mais calada.
Posto isto, meu querido namorado, melhor que ninguém, tu sabes que eu não sou uma princesinha! Ou sou, mas não sou uma princesinha mimada. Também não sou uma coitadinha. Tive a felicidade de ter os melhores avós, irmãos e amigos do mundo. Sou uma miúda feliz!
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