sábado, 2 de fevereiro de 2013

Querer ser sexy e não ter como

Quando era miúda tinha muitas paixonetas. Nenhuma se concretizava, muitas vezes porque eu tinha vergonha e medo que a minha irmã soubesse e contasse aos meus pais, outras porque não eram correspondidas. Felizmente passavam todas rápido. Todas menos uma. O Fábio. O Fábio era filho de emigrantes em Luxemburgo e vinha passar todos os Verões à casa da avó, vizinha da minha. O Fábio era um pedaço! Todos os anos, meses antes de ele chegar já eu pensava em mil coisas para fazermos juntos. Quando ele partia a tristeza instalava-se em mim. Ainda trocávamos umas mensagens, mas rapidamente percebíamos que a elas estavam associados custos que não podíamos suportar e que aquelas conversas não serviam para nada. Foi o meu amor platónico. Correspondido, mas impossível. Era impossível trocar um beijinho com o Fábio sem que irmãos, pais e avós tomassem conhecimento. Ele bem que tentava, mas aqui a menina esquivava-se sempre.

Lembro-me de um ano em que na véspera de ele se ir embora eu chorei agarrada a ele. Ele prometeu que no dia seguinte antes de partir, ia à casa da minha avó despedir-se de mim. Ele não percebeu a parte de não tornar as coisas demasiado óbvias lá para casa. Eu já tinha o momento preparado: despedir-me dele com aparente indiferença e com um sorriso. Mas ao mesmo tempo vestir uma roupinha sexy, para ele se lembrar de mim assim. Acontece que aos 13/14 anos, eu ainda não tinha a noção de sexy bem definida. Assim como também não tinha esse tipo de roupas. Então o que vesti eu? Umas calças de fato treino justas no rabo e ancas, que iam alargando mais para baixo. O conceito estava lá: não mostrei nada, mas mostrei tudo. A mini saia, que na altura se usava imenso, estava fora de questão, pois sempre que vestia uma ele olhava descaradamente e ainda dizia uma ou outra piada. Não era o que se queria em frente à minha avó. A isto eu chamo ser sexy e não poder. 

Agora, os meus leitores mais fofoqueiros anseiam por saber como terminou a história que não começou com o Fábio. Eu esclareço. Nesse dia, logo depois de ele se ir embora, fui chorar para o quarto. Para quem queria ser discreta a coisa não correu muito bem. Nos Verões seguintes a história repetiu-se, tirando a parte de querer vestir algo sexy, já tinha tomado juízo. Entretanto, um dia fui andar de bicicleta com a minha mãe, que tinha ficado um pouco mais para trás. Passei pela casa dele e, acaso dos acasos, ele estava à porta. Não percebendo que a minha mãe estava atrás de mim, lançou um piropo que expressava o quanto gostava de mim de uma forma menos apropriada. Resultado: a minha mãe contou aos pais e avós dele. O rapaz levou umas palmadas e foi obrigado a ir lá a casa pedir-me desculpa a mim e aos meus pais. Eu fiquei proíbida de o ver ou de falar com ele. E acabou assim. Nunca mais nos vimos a não ser pela janela. Entretanto outros valores se levantaram e eu comecei a ir passar as férias de Verão no Algarve.

Muito importante, não sei como me esqueci: o Fábio era um ou dois anos mais velho e, muitas vezes, não sabia conjugar os verbos. Não era um charme, um amor? Irresistível, não fosse eu uma menina ajuizada.

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